De repente nem sou eu o último amor de sua vida.
Tuesday, March 31, 2009
Me diz
De repente nem sou eu o último amor de sua vida.
Em movimento
A janela embaça,
as pessoas passam e fingem não se ver.
Eu olho perdida a falsa alegria que cai em gotas lá fora.
Ninguém se importa, ninguém te ajuda.
E, se bobear, ainda te jogam bem longe. Bem longe.
O mundo é mesmo um grande ônibus. E tem espaço pra mais um.
Um destino definido e o meu olhar ainda perdido numa borboleta.
Você sobe, empurra, espera e aguenta.
Fala, escuta, fica atento pra não ser pego de surpresa,
pra não ser presa de ninguém.
Você escolhe onde senta,
com quem se senta
e faz de conta que é passageiro
quando, na verdade,
é você mesmo quem escolhe pra onde ir.
Tuesday, February 10, 2009
Da próxima vez que você estiver deprimido e vir uma pessoa feliz, tente (pelo menos tente) sorrir com ela.
É assim que começam os bons dias.
Monday, January 26, 2009
Corta!
Queria muito que minha vida fosse um filme. Curta, longa ou média metragem. O importante era que tivesse a tela preta que divide uma cena e outra com uma considerável passagem de tempo. Dias. Meses. Ou anos. Uma vida cheia de cortes - como se a gente já não vivesse realmente assim.
Plano aberto na sala. Ela está parada, olhando pela janela a chuva que inunda a cidade lá fora. A câmera se aproxima lentamente, em direção a ela e à janela. Close nos respingos que caem. Na água que escorre no vidro. A câmera gira 90º para o rosto da moça. Agora é por ele que rolam águas. Uma lágrima de cada olho. Até então o diretor não revela o motivo. Um desafeto? Um desemprego? Um desabafo? Ela passa a mão direita no rosto e a câmera acompanha o movimento. A mão passa o cabelo pra trás da orelha. Depois desce e se junta à outra para segurar um papel com firmeza. Take de 2 segundos no papel. SÃO PAULO. Close na boca trêmula. Close no papel novamente. Uma passagem apenas. A câmera acompanha a mão mais uma vez. A mão que guarda o papel. A outra que agarra uma mala. Plano médio. Ela vai embora e você acompanha as costas dela. Ela passa o sofá, passa a mesa e ao passar pela porta, o corte brusco de uma tela preta encobre tudo.
5 MESES DEPOIS.
É disso que falo quando quero viver um filme. Quero a tela preta. Com todos os letterings que eu tiver direito. “Era uma vez”, “Anos depois”, “E viveram felizes para sempre” ou um simples “Fim”. Eu quero o meu com pipoca, muito sal e tela preta. Esses letterings são simplesmente fantásticos. Ajudam o ator ruim, o diretor com baixo orçamento, a produção cansada, o telespectador que quer logo que o filme acabe. Lettering e tela preta. É como o CTRL Z. Seria lindo tê-los no bolso sempre que precisasse usar na vida real.
O que me deixa maravilhada com a tela mágica, preta, branca e seu lettering é que, pode passar o tempo que for, vai ser completamente indolor pra todo mundo. Passam 5 meses. A pessoa aparece em outra cidade, bem de vida, sorridente, bonita. Tem o emprego. O afeto. A felicidade. Ninguém sabe como aquilo se passou, quem a ajudou, o que ela sentiu. Indolor. É assim que passa o tempo em uma tela preta. É assim que eu quero uma tela na minha vida. Agora. Corte brusco. Já. Podia ser drama, comédia, suspense, faroeste ou ação. Espanhol, alemão, italiano ou nacional. Fellini, Godard, Coppola, Selton Mello, Walério Duarte ou Deus. Qualquer opção. Contanto que eu tivesse minha tela preta e o lettering certo, tudo terminaria bem.
Wednesday, December 17, 2008
Desisto
Pelo menos daquelas que não me parecem mais tão fundamentais.
Desisto de pessoas que se fazem de difíceis.
De crianças tolas que fazem charminho.
De homens que não tomam iniciativa.
De amigas que desmarcam encontros em cima da hora.
De namorados que não fazem surpresa.
De pessoas que se atrasam.
De dizer "eu te amo" quando a pessoa já pisou muito na bola.
De colegas de trabalho que falham e põem a culpa em outra pessoa.
De parentes que falam mal de outros parentes.
De ex-namorados que querem virar melhores amigos.
De blogs que falam sobre fofocas de celebridades.
De celebridades.
Desisto de quem me faz pensar que a vida é triste.
E de quem faz a minha vida ser assim.
Desisto e pronto.
Monday, November 03, 2008
Domingo na República
Tantas pessoas pra olhar, mas eu escolhi você.
Não sei se pelo andar torto ou pelo jeito dúbio de olhar os peixes
Por querer se jogar na água com eles.
E era um domingo cheio (cheio e vazio)
Com todos que a gente não queria aqui
E mesmo sem saber teu nome
Eu sabia que você precisava de mim.
E desce o sol de dez horas do nosso primeiro dia.
E me basta estar te olhando pra ser nosso.
Não só pelo peixe, pela mágica ou pelo cão que fitamos.
Mas por que eu te escolhi. E isso já faz bem pra mim.
Thursday, October 16, 2008
Eu começo
Será que funciona escrever um texto com várias mãos? Bora tentar?
Naquele dia, o céu estava mais azul, as ruas vermelhas e ela sorria amarelo.
Não encontrou sua lente de contato e, consequentemente, não reconhecia um palmo de cabeças a sua frente. Ela tentava disfarçar. Esperou tanto tempo por aquela festa e agora nem tinha a certeza de estar na festa certa.
De repente, ao conseguir erguer a cabeça e fixar os olhos em um ponto só, viu algo...
(continua nos comentários)Tuesday, September 23, 2008
Cegueira
Era já avançada nas primaveras, mas letárgica na vida.
Viveu tudo que tinha para viver na infância. E ali estagnou.
Não que tivesse perdido a memória.
Não que pensasse em perder a vida.
Mas sim que suas lembranças nostálgicas não lhe deixavam mais seguir adiante.
Sua inconformação era não poder voltar ao passado.
E ainda fez tudo o que pôde para que isso acontecesse.
Largou o namorado que a interpelava sempre, buscou amigos antigos no Orkut, comprou os velhos brinquedos no Mercado Livre. Encontrou uma máquina digital das antigas e se refugiou em diários com cadeado.
Mas faltava algo.
Naquele dia, Clara subiu ao telhado de sua casa como costumava fazer na infância. Contornando buracos, arriscando-se entre os galhos da goiabeira vizinha e equilibrando-se entre uma e outra telha. Parada no tempo, pensava sobre ele. Lembrava de poucas coisas da infância e por isso queria trazer as que tinha, de volta à vida. Subia ao telhado toda vez que se sentia só. E era assim que ela continuaria hoje.
Como todo mundo fica algumas vezes na vida, lembrando do que já passou, dos amigos de 20 anos atrás, das músicas que marcaram uma manhã no parque, uma chuva da tarde ou uma noite de solidão. Ser nostálgico não faz mal algum. Viver na nostalgia sim.
E Clara não sabia que ficar horas naquele telhado, buscando pessoas com a memória não as traria de volta. Ela procurava respostas numa racionalidade contrária a seu nome. Cega por não ver o presente. Clara não aprendeu que não ia conseguir resposta alguma à sua solidão. Não enquanto estivesse lá em cima.
Friday, September 12, 2008
Crônica de um carro branco 3
Mas estimo que 70% deles sejam loucos.
Não à toa essa é a minha terceira crônica sobre coisas fantásticas que só acontecem com taxistas.
Meu bem, hoje peguei um Fiat Mille velho por fora, mas peliculado, com ar-condicionado e bancos impecáveis por dentro. Com exceção do motorista, tudo estava em ordem. Primeiro, que motorista? O cara era tão pequeno, mas tão pequeno que achei que o carro estivesse sendo guiado realmente por Deus, como dizia o adesivo no vidro traseiro.
Dei o endereço para ele e seguimos. Ou melhor, dei o endereço seis vezes e aí sim, seguimos.
No aparelho de som, pagode. E não aquele pagode velho que já foi gostoso, do Raça Negra e Exalta Samba de 1998 (que eram os únicos que prestavam). Pagode novo, Jeito Moleque, Inocente, Pivete ou sei lá o quê. Altíssimo nível.
- Você gosta de pagode? - me pergunta o senhor de trinta e poucos.
- Pra falar a verdade, não.
- Hum - não parecia ter gostado muito da resposta. Fiquei com medo. Não é sempre que fico com medo de alguém, mas aquele homem conseguia fazer isso comigo. Era baixinho, mas assustador - Então deixa eu ver se tem algo que a senhorita goste.
Ufa, pensei.
- O senhor não precisa mudar... - falei por pura educação
- Claro que preciso, mas tem algo bom aqui, você vai ver.
Não sei se foi por deboche, não sei se foi por vingança. Não sei. Só sei que foi assim, de pagode a Bruno e Trio em quatro segundos. Bruno e Trio. Você sabe de que nível é isso? É tecno brega. Não, não, desculpe. É tecno melody.
- Ah... agora sim... - respondeu ele como se fosse por mim
- ((Pigarro))
E assim eu fui até o final. De um extremo a outro da cidade ouvindo "Meu amor não consigo esquecer de você, quando lembro do seu jeito lindo... Eeee você a mais bela... lábios tão vermelhos, lábios tão bonitos.. é o amor."
Tentando abafar o som, vinha relembrando da minha vida de corridas com pés de borracha. Acho que nunca peguei um taxista com bom gosto musical. Deve ser pré-requisito para iniciar a carreira:
1. Não presto pra fazer outra coisa na vida.
2. Minha mulher é uma mala
3. Dirijo que nem doido
4. Adoro brega, pagode, Wando e Calypso.
Ai, meu bem. Nunca quis tanto que ele corresse, que o CD quebrasse, que eu parasse em qualquer esquina e fosse andando pra casa. E depois de 8 longos minutos de tortura musical, paguei, desci rápido e entrei em casa aliviada.
Mas a alegria durou pouco. Depois, de 5 em 5 minutos eu lembrava inconscientemente da porcaria da música e pra piorar ainda cantava em voz alta "Lábios tão vermelhos, lábios tão bonitos... é o amor" até não me aguentar mais.
Na velocidade do pensamento
Amigos para se divertir.
Família para consolar.
Espaço para aproveitar.
Trabalho pra se sustentar.
Carreira para se gabar.
Namorados para charlar.
Filhos para mimar.
E termina tudo numa manhã de chuva se perguntando o que, nessa vida, a gente veio buscar.
É um ciclo. Início, meio, sofrimento e fim.
E no fim você descobre o que queria encontrar.
O que não tem resposta. O que sai da sua cabeça e volta pra ela. Ou dela nunca sai.
Num ciclo. Início, meio, meio e
Fim.
Wednesday, September 10, 2008
Carta de despedida
Até Rafinha Bastos já dizia isso. Quando o homem tá solteiro, quer casar. Quando tá casado, quer morrer.
Sempre insatisfeito.
No fundo, sou a favor dessa inquietação. Até porque no mundo de hoje, a serenidade é um artigo de luxo para a maioria das pessoas.
Sou a favor porque gosto da arte da dúvida. De que todos parem uma semana de sua vida, pensem e descubram que nós mesmos complicamos as coisas fáceis que ela nos oferece.
Isso serve pra mim. Todo dia. E hoje, pra você.
Gosto que te inquietes.
Que queiras te jogar na cama e dormir, chorar, dormir e chorar até o outro dia.
Que tentes desistir de tudo.
Gosto porque sei que não és assim.
Gosto mais por saber que não vais ter a covardia de fazer isso.
Você não é assim.
Você é mais forte do que pensa.
Você tem bons sentimentos e é mais homem do que muitos por aí.
Você é mais humano, mais pai, mais amigo do que imaginas ser.
Você é mais esperto, mais sagaz.
Você é mais engraçado que os outros, mas esconde isso atrás de um sorriso que teima em não existir.
Você que me deu tanta coragem pra enfrentar a mim mesma hoje não tem a mesma sabedoria como atitude.
Você que conhece até meu olhar mais misterioso, hoje não se conhece como deveria.
Você não é assim, meu bem. E ponto.
E não merece estar pensando tão ruim assim de si mesmo e de tudo a seu redor.
Teu inimigo hoje é o tempo que, em vez de passar rápido, se move em slow motion esperando que você aprenda.
E você é mais inteligente do que sua crise. A gente sabe disso mas não se ouve. Você sabe.
Você é especial, meu filho.
E como toda pessoa especial vai saber enfrentar o momento com muito mais serenidade do que pensa. Serenidade. Não apatia. Não cansaço. Não desistindo.
Hoje te escrevo esta carta de despedida para que aprendas.
Para que aprendas a te despedir no momento certo disso tudo que te inquieta.
Porque se inquietar é bom. Mas permanecer na inquietude é tolice.
E você, meu bem tão especial e tão bom, não merece tamanha tolice.
Não mereces desistir. Não merece se render a uma inquietação efêmera.
Não é de você. Não é.
E por isso estou ao teu lado. Até descobrires que não és essa fraqueza toda que tomou conta de ti. Até te despedires da solidão que grita em teu peito. Até superarmos tudo que nos afasta. Juntos. Você e eu, meu filho. Você e eu.
Tuesday, September 02, 2008
30 dias
Não adianta. Quanto mais as pessoas me pedem, menos vontade eu sinto de escrever.
Ontem alguém comentou que vira e mexe vinha me visitar, mas nem sempre tinha texto novo. Dois minutos depois bloqueei a pessoa.
Não adianta pressionar. Por mais rude que soe, essa é a mais pura verdade.
Engraçado é que o contrário já funciona para publicidade. Quanto mais me pressionam, melhores ficam as idéias.
Anyway, esse texto é prova de que eu não sei escrever sob pressão. Mesmo que seja uma pressão própria, por obrigação de atualizar o blog.
Mas o que eu queria mesmo era dizer parabéns de uma forma criativa a uma pessoa que gosto muito. Mas não tá saindo. Não sob pressão. Ãnnnnnn.
Mas já sei. Vou me bloquear. Pode ser que depois saia algo.
Feliz aniversário, creança. E obrigada por tudo.
Monday, August 11, 2008
Desabafo
Viver como se ninguém estivesse olhando.
Sem se importar com o que eles pensariam.
Sem olhar pra trás enquanto corria desajeitada.
Ela queria ser do seu jeito.
Livre.
De um jeito utopicamente perfeito.
Mesmo que soasse falso.
Mesmo que falso realmente fosse.
Mas o suficiente para viver com quem gostaria.
Como gostaria.
E como gostaria.
Para aproveitar esta paixão repentina, perturbadora e única como se ninguém estivesse olhando.
Tudo para não te perder.
Mesmo que agora você não ouça os gritos destas palavras.
Por já ter sido perdido.
Friday, August 08, 2008
Crônica do segundo carro
Seu Barbosa. Velhinho simpático, ria de tudo.
Estou rindo até agora da resposta dele aos borós que você deixou em minhas mãos.
- Te coça pra pagar.
Nunca ouvi nada do tipo, de nenhum taxista, na vida toda. Por mais que tivesse razão em se preocupar com os nove reais em moedas e da minha risada de dois minutos não contida.
Ah, querido.
Gostaria que tivesses continuado a corrida comigo.
Que batesse a cabeça no teto depois da lombada como eu bati.
Que o visse dobrando uma esquina de quarta marcha, a 60 km, como eu vi.
Que ouvisse a pérola que complementou a noite:
- O senhor passou ontem por aqui? Viu como tava engarrafado? É que estavam asfaltando aqui.
- Ah, minha filha. Mas esses caras assaltam mesmo todos os dias.
- Não, senhor. Eu disse "asfaltando", passaram o asfalto na rua.
- Ahhh bom. "Osfalto?" – assim, com o Ó bem agudo. - Ooosfalto! Ah sim, não tava entendendo o que você disse.
Fechei o restante da corrida por 15 reais. Ele desligou o taxímetro.
O vento vindo da janela da frente esvoaçava meus cabelos. Pedi que fechasse, mas, ainda sorrindo, ele me respondeu que o vidro não fechava. Ele nem devia se importar muito. Até porque nem cabelo tinha para que os ventos bagunçassem.
E continuava com o sorriso no rosto. Em momento nenhum o atropelava. Nem mesmo quando eu disse que não gostava de carecas. Ele seguiu, um pouco mais rápido até, mas continuou com seu sorriso estampado.
Confesso que ver alguém assim, mesmo com 50 anos de “osfalto”, me deixou com uma ponta de inveja. Inveja branca, claro. Como se a cada passageiro que ele pegasse, um ano a menos tivesse. Pois, apesar dos incontáveis cabelos brancos, devia ter uma alma de moleque.
Desci do carro mais contente. Pelo menos bem mais do que anteontem. E enquanto eu abria o portão, ele me esperava entrar em casa. Sorria ainda mais. Foi então que percebi que ele fechou o vidro que supostamente não fechava. E me dei conta de que seu riso não era bem pelos meus motivos, mas sim o de um moleque mesmo, por mais uma vez tirar sarro de uma passageira que saía do carro toda descabelada.
Thursday, August 07, 2008
Ela e só
Hoje ela estava diferente.
Ele não percebeu. Ou não queria perceber. E continuava a falar.
Naquele momento ela se deu conta de que escondeu, por muito tempo, uma percepção a seu respeito. Mas aquele momento parecia ser propício para revelá-lo a si mesma.
Através do olhar dele e das palavras que dizia à sua frente, enquanto levava o garfo com um alface sujo à boca, ela percebeu porque o deixava falar tanto.
- Se eu começasse a falar, ele se importaria? Meu problema o interessaria? Falar de tensão, inseguranças, sentimentos vazios, sonhos destruídos, saudade dos poucos amigos vai mudar este almoço? Vai mudar o quê na minha vida?
E por toda a vida travava este diálogo. E só agora percebia. Por isso suas respostas eram rápidas.
- Está bem?
- Estou. Só um probleminha lá no trabalho, mas vai se resolver.
Ela não sabia se o problema ia se resolver. Sua auto-suficiência era tamanha que só via uma resposta: ela ia resolver. Por mais que não o fizesse, falar sobre o assunto também não mudaria o rumo do problema. Pelo menos não em sua cabeça. Pelo menos não no vazio de sua consciência. O outro não se importaria.
E assim ela levou todos os anos de sua vida. Por isso não se abria. Por isso seus amigos eram poucos e tão distantes.
Ela se bastava. Abastava-se. E afastava-se.
Mas perceber aquele sentimento entre a carne de sol e o abacaxi fazia toda a diferença.
Ela ofereceu uma rodela a mais a ele. Deixou que sua boca se ocupasse, enquanto ela tentava falar. E conseguiu. Finalmente falava.
Falava da infância, dos medos atuais, da insegurança que a afligia. Ele a olhava.
Mas para ela era o mesmo olhar que via em todos. Como se não importasse nada do que ela estava falando. E então parou. Enfrentar este medo agora não tinha sido a melhor decisão.
Ela falaria, mas não apagaria o sentimento de culpa por falar demais.
E interrompeu-se. De falar de si, de mostrar quem era, de deixar que outro se preocupasse por ela e com ela.
Hoje ela não vive só. Embora muitos imaginem este fim para quem se cala dessa forma.
Hoje ela fala para as folhas em branco que não respondem olhar nenhum.
Fala para um blog preto e branco que parece se importar se ela ficar muito tempo sem falar nada.
Tuesday, August 05, 2008
Crônicas de um carro branco
As histórias de um casal que se diverte quase todas as noites, embalado pela companhia da pobreza de não ter um carro e da Lei Seca que os impele a chamar o primeiro carro branco que aparecer no fim da noite. As histórias podem ou não ser reais. Vai saber...
Meu bem, hoje peguei um velho rabugento.
Ele não me respondeu sobre o trânsito. Não soube e nem quis me dizer que horas eram, mesmo estando com o relógio no pulso. Acho que virar o braço para verificar as horas devia realmente atrapalhá-lo de discernir entre o verde, amarelo e, naquele exato momento, o vermelho que ele acabara de passar.
Não sei se a mulher dele não colocou o cheirinho no carro como ele pediu, ou o se o filho voltou a dizer que o sexo masculino é muito mais interessante. Só o que constatei foi o mau-humor que, mais um pouco, me empurrava do carro três curvas depois de ter lhe deixado.
Quando perguntei bandeira 1 ou 2 quase que levo a bandeirada na cabeça. Ele finalmente conseguiu virar o relógio 35º sem alterar a direção do volante e me responder:
- Passou das oito é dois, senhora.
Eu, no auge da delicadeza, agradeci.
- Ah bom. Sabe como é, tem cada taxista...
Ele espiou bem pelo retrovisor como se eu estivesse falando alguma mentira muito absurda. Se é verdade, tá olhando o quê? Eu mesma já peguei três que me enganaram. Um velhinho mau-humorado a mais só ia me acrescentar mais histórias à vida de leiga. Depois de muito me olhar feio, esbravejou alguma coisa em árabe que não compreendi bem – falando assim até parece que eu entendo algo de árabe. Daí pra frente, foi só maravilha.
Quando eu já estava me arrependendo de ter feito sinal para o indíviduo, ele balbuciou algumas palavras.
- Não entendi, o que o senhor disse?
- mmumf..
- Hum... - e aí se foi a esperança de um diálogo.
Dez minutos depois. Veio a segunda palavra.
- Filho da pu...
Só que não pra mim. Foi pro Celta vermelho do lado. Tinha um negão forte, com cara de muito brabo dirigindo. Claro que o taxista olhou bem pra ele antes de falar. E mais óbvio ainda que ele não abriu o vidro pra gritar isso.
Enquanto o som daquele nome ainda se propagava pelo pequeno Fiat uno com películas desgastadas e bancos que gemiam mais que o velho, eu tentei me achar no lugar onde estava. Aquela não era minha rua. Se bobeasse nem meu bairro era. O motora rabugento e, pelo visto, também surdo, pegou o pior caminho pra chegar num rumo aparentemente fácil. Aparentemente. E de aparência pelo visto o Moisés não entendia muito. Três vezes tentando explicar o endereço e dezenove reais depois, cheguei em casa.
De todos os gestos estranhos, xingamentos e baforadas, uma atitude dele me fez sentar e escrever esse texto provando que as pessoas nem sempre são o que parecem.
Saí do carro, abri o primeiro portão, o segundo e olhei pra trás. Ele deu uma buzinada de leve e só partiu depois que entrei em casa com toda segurança possível. Confesso que fiquei abobalhada. E quando entrava em casa sorridente pela inesperada atitude, olhei pros trocados e vi que faltavam três reais. E isso explicava o sorriso sacana do velho caloteiro por encerrar a corrida.
- Velho filho da p....
Wednesday, July 23, 2008
É quase um milagre. Um mártir. O papai noel.
Todas as pessoas querem ter razão.
É por isso que o mundo tá do jeito que tá.
Tá, o mundo não. É muito longe.
É por isso que sua família é como é.
Que seu trabalho não é perfeito.
Que a sua namorada não sabe discutir a relação sem ser na hora do futebol.
Tudo porque é um baita tiro no peito dizer “Você tem razão. Eu estou errado”
Mas eu não vou ficar aqui escrevendo texto de auto-ajuda.
Eu só estou falando isso porque constatei esta verdade recentemente, no dia-a-dia.
Nunca havia parado pra pensar na dicotomia que é dizer essa frase mágica. Porque ao mesmo tempo em que falar deixa você sem escudo, vulnerável e prestes a ouvir, a qualquer momento, um “Ahá, eu sabia” ou um “É... finalmente” de deboche, você também pode deixar a outra pessoa completamente sem fala. No máximo aquele “Hum...” sem graça, de quem ainda não sabe se acredita ou não.
Experimente. É incrível como você consegue resultados muito melhores quando abre mão do seu ego, da sua razão que, muitas vezes, nem está tão certa assim.
Bem, é meu segundo post desabafo. Espero que esse blog não vire um diário de menininha por causa disso.
Mas fica aqui a dica. Se um dia o bicho estiver pegando, seu chefe te perturbando, seus pais quase te botando pra fora de casa, seu namorado doido pra te bater, experimente dizer “É verdade. Você tem razão.”
Tudo muda.
Deve haver algum estudo científico comprovando que a frase faz bem pra circulação, cura problemas cardíacos e é um alívio para dores estomacais.
E eu, tadinha, só o que posso desejar é coragem, para que sua língua consiga falar, no momento oportuno, essas pequenas palavras que podem mudar uma história inteira.
Né? Você não acha que eu tenho razão?
Friday, May 30, 2008
35 minutos de fama
Quem realmente já era foi meu singelo convite da ADVB.
Não, infelizmente esse não é mais um de meus contos.
Aconteceu hoje. Nesta tarde chuvosa de fim de mês.
Eu, uma publicitária toda empolgada, inscrevi há mais ou menos 1 mês, dezenas de peças no site do CCSP que é uma referência de todas as boas propagandas (e algumas ruinzinhas também) que rolam pelo Brasil e Argentina afora.
Ter uma peça lá, dá realmente um grande orgulho no já inflado ego publicitário. Mas hoje o meu tá murcho. Tá xoxo, para os mais chegados.
No auge do meu trabalho de um fim de tarde de sexta-feira, recebi um recado de um amigo em Recife dando os parabéns pela peça publicada. Eu achando que era alguma das antigas (pelo menos disso não tenho do que reclamar), fui ver e dei de cara com um convite de Happy Hour Empresarial feito para a ADVB-PA por mim e pelo meu dupla temporário, Jorge Sá.
Após 3 minutos de gritaria, aquele esparro pros colegas da Criação, depois de metade da sala me chamar de pano preto porque eu nunca disse que tinha postado lá, eu respirei fundo e fui olhar tudo de novo. Estava lá. Realmente estava lá. Todos na sala viram, o que me dá mais raiva ainda.
Avisei o chefe, avisei um cliente que estava com o chefe, o chefe avisou o cliente da peça, o cliente estava mandando todos os e-mails para os empresários que participara, os vizinhos estavam quase ligando para dar parabéns, a mamãe estava super feliz por ter uma filha que fazia alguma coisa que foi publicada em algum lugar sobre algum assunto que parecia ser algo bom.
Daí, depois de toda a adrenalina e da dor nas pernas por subir e descer a escada várias vezes, volto para a minha mesa para publicar no portifólio o tal do convite. Agora me diz, cadê o convite? Eu procurei, a galera toda aqui procurou e nada. Nunca na história desse site, eu tinha visto algo parecido.
Sei lá se o estagiário publicou sem autorização e os chefes mandaram tirar... não sei. Só sei que sumiu! E ele tava lá sim que eu vi e tenho tistimunhia! Sumiu!
E até agora nada. Ninguém me disse o por quê, o pessoal da Gamma (onde trabalho) tão empolgado quanto eu também ficou injuriado quanto a isso e cá estou eu, desabafando em um blog, coisa que eu nunca imaginei que faria. hehehe
Por isso, para a mamãe não perder todo o orgulho que ela demorou a ter de mim e nem meus chefes me demitirem por falsa manifestação, publico aqui o anúncio. E eu espero que gostem, porque sinceramente, agora gosto muito mais do pouco público deste blog, do que os que de lá.
Tá bom. Mas só hoje. Amanhã vou voltar lá pra tentar inscrever outros. :)
Abraços e valeu pela força.
P.S: A peça voltou para o site. Agora já volto a frequentá-lo todos os dias. O que a responsável me disse é que houve um erro do sistema. E que meu desespero foi à toa. rsrs
Tuesday, May 27, 2008
A agência dos sonhos
Fiz um relatório de todas as coisas que eu gostaria que existissem em uma agência perfeita.
Me ajuda, vai. Continue completando os seus sonhos aqui. Quem sabe alguma agência gosta e adere a algumas destas idéias ou então a Apple pára sem querer aqui no meu blog e resolve desenvolver algumas destas tecnologias. Pois é, já comecei a sonhar. Continuando...
1. Um revisor que fale francês, inglês, espanhol, italiano e japonês. Mas se falasse bem só o português eu já ficaria satisfeita porque não tenho nenhum mesmo.
2. Um tráfego eficiente.
3. Um homem para ser atendimento. Bonito, inteligente e que, se necessário, dissesse na cara do cliente que a idéia dele era ruim sem medo e com propriedade.
4. Um assistente para colocar papel na impressora, imprimir e levar até a minha mesa o arquivo.
5. Um assistente para concordar com todas as minhas idéias na frente do chefe.
6. Uma academia.
7. Uma sala de descanso com aquelas poltronas que fazem massagem.
8. Tá bom, a poltrona é cara? Uma massagista então, uma vez por semana.
9. Cursos esporádicos com diretores de criação e de arte de fora. E quando eu digo fora quero dizer Sudeste ou exterior e não Macapá.
10. Um departamento de Planejamento que faça isso de verdade e que funcione.
11. Um departamento de Pesquisa que convença os clientes a fazerem isso.
12. Diretores de Arte com passagem por, pelo menos, 3 faculdades diferentes, muitos livros, muitas referências, muita propaganda.
13. Redatores com passagem por, pelo menos, 3 faculdades, 8 cidades, 3 países e várias agências.
14. Estagiários dispostos a ficar até mais tarde não só pela comida.
15. Pratos mais gostosos depois das 20h
16. Contra-cheque detalhado, salário no dia, aumento de 40% a cada 1 ano.
17. Janela com vista para o museu
18. Carro da empresa à disposição para eventualidades
19. Atividades extra-sala. Paintball, boliche, vôlei, futebol, bilhar, Yoga.
20. Latas para separar lixo.
21. Dois recepcionistas: um homem alto, loiro, de olhos verdes e uma recepcionista bonita.
22. Piscina.
23. Um pequeno salão de beleza.
24. Estacionamento seguro e amplo.
25. Colegas de trabalho que não fofoquem, se respeitem, se gostem, saibam se ouvir e criticar construtivamente.
Aí é aqui que eu acordo.
Mas pelo menos minha agência ainda oferece café da manhã, almoço e lanche (ah, e jantar quando eu fico até mais tarde). E também tem um senhor segurança lá na porta e um chefe extremamente simples e bacana. E isso não tem em todo lugar, não.
E aí, o que mais você gostaria que tivesse? Por favor, sugestões de redatoras e "atendimentas" trabalhando de biquíni serão deletadas.
Thursday, April 17, 2008
De novo e outra vez
Quer dizer que você achava que eu nunca voltaria?
Sim, estou falando com você! Não adianta olhar pro lado!
Êpa, pode largar a mão deste mouse!
Fique aí, paradinho, só enquanto eu tiro essas teias de aranha aqui de dentro...
É incrível a falta de consideração dessas pessoas.
Só porque eu passo 4 meses sem escrever não quer dizer que você pode me abandonar desse jeito!
Era um falso amor mesmo.
Mas tudo bem, eu me recupero depois.
Nem queria seus comentários mesmo.
Vai ver se engraçou com algum outro blog por aí.
Ou então passa o dia vendo atualizações dos outros no Orkut e mal tem tempo para me visitar.
(Soluços de choro) Tudo bem... eu tô bem. Quer dizer, eu vou melhorar.
Mas por favor, deixe um comentário pelo menos. Não me deixe assim tão rápido!
Um coment apenas! Só para me fazer companhia nestes próximos dias de frio (é que minha casa também alaga quando chove).
Um beijo. (buáááaá)
E mais uma vez ele quase se suicidou. Quase.
Friday, January 25, 2008
Redator I
- Campanhas, senhor. Campanhas publicitárias.
- Hum, é, isso mesmo. Quer dizer que você está passando por um bloqueio, é isso?
- Sim, senhor, é isso mesmo.
- Hum... E que não consegue criar nada sem consultar um velho... er... deixa eu ver onde tá...
- Anuário, senhor... anuário
- Bem, bem, é isso aí. Um antigo anuário russo de 1992. Pois bem... Vejamos...
10 minutos de silêncio depois.
- E como você sente com isso?
- Ora, doutor. Mal, né? Não dá pra continuar assim. Eu PRECISO criar coisas minhas. Preciso ter idéias novas e nenhuma vem!
- Mas, Filomena, você não pode ficar ansiosa assim. Primeiro que, tudo que tinha pra ser criado, já foi criado. O resto é apenas adaptação das primeiras criações da civilização... E em segundo lugar, você já sabe onde isso vai dar...
- ... Não, não é possível. Deve ter um jeito. Não pode ser. Como Olivetto dorme? Nizan? Meu chefe?
- Todos do mesmo jeito, suponho.
- Como?
- Cheios de grana no bolso.
- Mas não é isso, doutor!! É a criação! Ser o ser supremo que põe em prática aquelas idéias fantásticas...
- Agora você quer ser Deus também? Nossa, exigente você, hein...
- Que Deus, doutor! Eu quero é criar! Colocar títulos novos no jornal. Formatos diferentes. Propôr layouts esdrúxulos e vê-los sendo aprovados, ali, diante de meus olhos quase cheios de tanta lágrima...
- Hum hum - pigarreia - Mas, pelo que me lembro na última sessão já discutimos sobre isso. Você esqueceu quem são seus clientes? Vai voltar ao problema anterior? Se sim, tudo bem. Ainda tenho muitas caixas de Valium disponíveis.
- Não, não. Deixe pra lá. O senhor está certo. Não sei de onde tirei tudo isso... No fundo, tudo é chupada mesmo.
- Como?
- Nada, não, deixa pra lá. Acabou meu tempo mesmo, né? Obrigada, doutor. Sabe Deus como, mas o senhor me ajudou muito. Vou esperar o telefonema do Banco amanhã. Quem sabe não pinta aquela vaga pra escrivão do Basa. Até a próxima, doutor...
E assim devem estar morrendo todos os bons redatores em Belém. Porque não se acha um sequer.
Texto de apoio sugerido para levá-lo a acessar o site www.oportunidadesbelem.blogspot.com
e ver se não há um redator reprimido em você.
